Reordenando nosso amor (1/3) – O que Deus ama?

Essa série de três posts foi baseada no sermão “amor além do afeto”, pregado na PIB Rio de Deus em 26/08/2018. O primeiro post é mais longo devido ao contexto da passagem bíblica.

 

Judas, tendo recebido o pedaço de pão, logo saiu. E era noite.

Depois que ele saiu, Jesus disse: Agora o Filho do homem é glorificado, e Deus é glorificado nele. E, se Deus é glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e logo o glorificará. Filhinhos, estarei convosco apenas mais um pouco. Vós me procurareis; e, como eu disse aos judeus, também vos digo agora: Para onde vou, não podeis ir.

Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto todos saberão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.

Então Simão Pedro lhe perguntou: Senhor, para onde vais? Jesus respondeu: Para onde vou não podes seguir-me agora; mais tarde, porém, me seguirás.

E Pedro lhe disse: Senhor, por que não posso seguir-te agora? Darei a minha vida por ti.

Jesus respondeu: Darás a vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes.

João 13:30-38

Ora, eu acredito que todas as pessoas naturalmente valorizam o amor. Amor de mãe, de pai, de marido, de mulher, de filho, de namorado, de amigo, de colega de trabalho, de pet. Não dá pra imaginar a vida sem essas coisas. São nossas afeições, é onde nosso coração está, o que guia toda nossa vida. E acredito que todos também saibam que existem amores maiores e menores. Eu posso amar a ideia de ficar magro, amar a ideia de fazer um regime… Mas se eu, mais do que isso, amar o Big Mac, de nada adianta. O amor maior vence.

Só que o amor de Deus transforma todos os nossos amores. Esse amor por Deus não permite concorrentes, ele precisa ser mais forte que todos os outros, visto que Deus é maior que todas essas coisas. Eu amo a Tapioca, gatinha da minha noiva, mas amo muito mais a dona dela. Estranho seria se fosse o contrário. E isso muda a forma que eu me relaciono com elas. O nosso problema, o problema fundamental de todo ser humano, é que nossos amores são desordenados, fora de ordem. Amamos muito coisas pouco importantes, e amamos pouco coisas que são muito importantes. Amamos nosso amor, nosso afeto, e não as coisas amáveis. Nosso amor por Deus é fraco, enquanto nosso amor pelo pecado é forte. Parafraseando C. S. Lewis, amamos a poça de lama, enquanto odiamos o final de semana na praia. Na verdade, o homem sem Cristo odeia a Deus, que é fonte de todo amor.

Contexto
A passagem no começo do post vai ser instrumento de Deus para colocar nosso amor em ordem. João, o discípulo amado, ama amar o amor que nos ama, então estaremos bem servidos para pensar sobre esse assunto se o escutarmos.

No primeiro verso do capítulo 13: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que havia chegado sua hora de passar deste mundo para o Pai, e tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. Jesus amou os seus até as últimas consequências. Não há amor mais doce do que este, não há capacidade de se entregar maior que esta, não há um Ser que estava tão alto quanto Jesus, e que mergulhou tão baixo quanto Ele… Por nós. Ele sabia que a hora da cruz estava chegando, então para mostrar como era seu serviço, Ele lavou os pés dos discípulos. Até mesmo de Judas. O traidor foi possesso pelo próprio diabo, e agora saiu para vender por 30 moedas aquele que vale mais que todos os tesouros do Universo. Leia o versículo 30 comigo: “E, Judas, tendo recebido o pedaço de pão, logo saiu. E era noite”. Era noite. Noite física, mas também, noite espiritual. Dali a algumas horas o Santo seria amaldiçoado, açoitado, cuspido, humilhado, abandonado e pregado na rude cruz. O que Jesus faz nessas últimas horas antes da dor? Ele dá instruções apenas para seus discípulos verdadeiros, e ora. Na mais ardente angústia nosso Mestre preocupou-se com seus discípulos e em orar.

Logo depois da passagem que lemos, temos o grande discurso de despedida nos capítulos 14 até 16, com uma magnífica oração de Jesus no capítulo 17. Irmão, se você nunca leu os capítulos 13 até 17 de João, você deveria parar agora tudo que está fazendo para isso. Vemos perfeitamente o carinho de Cristo para conosco, Sua humildade, Seu amor, Sua promessa do Espírito Santo, Sua paz, como Senhor, e a nossa união, nosso amor, nossa missão e nossa esperança, como Igreja. Após isso vem a paixão de Cristo, Sua prisão, sofrimento, e morte. Apenas olhando para esse Salvador, apenas mergulhando nesse mar de graça, podemos corrigir nossos afetos, rejeitando o amor egoísta e superficial.

Como veremos isso? Nesse post olharemos para o que Deus ama; no próximo para o que nós devemos amar; e, por último, a nossa falta de amor.

  1. O que Deus ama

Agora que Judas saiu é como se o gatilho para todas as coisas que vão se seguir fosse disparado: o tribunal, a cruz, a tumba e a ressurreição. O que passa na mente de Jesus nesses momentos? Qual é a sua primeira preocupação? Onde o coração do Salvador se refugia diante das trevas que vai enfrentar? Veja os versos 31 e 32:  Depois que ele saiu, Ou seja, o que Jesus vai falar não era para os ouvidos do traidor Jesus disse: Agora o Filho do homem é glorificado, e Deus é glorificado nele. E, se Deus é glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e o logo o glorificará.

Glória é o esplendor, é a luz que resume tudo que alguém é. Poderíamos dizer: “Em 2002, na Copa, vimos Ronaldo em toda a sua glória”, ou seja, vimos todo o seu potencial, tudo que ele era, demonstrado de forma clara, brilhante.

Jesus nos diz: Agora, ou seja, na hora de Sua morte, eu serei glorificado. Pare para pensar nisso. O momento que mais veremos a glória do Filho não vai ser no batismo, onde o Espírito Santo veio como pomba e o Pai disse “este é meu Filho amado”. Não será no monte da transfiguração, onde o rosto de Cristo brilhava mais do que o Sol. Não é curando leprosos ou ressuscitando mortos. O momento em que vemos Cristo Jesus, e, já que Ele é Deus conosco, o momento em que vemos o próprio Deus em tudo que Ele é, o momento em que vemos o amor, justiça, compaixão, santidade, fidelidade, ira, poder e bondade de Deus em toda sua glória… É no sacrifício! Quando João disse no capítulo 1: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, pleno de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai”, ele pensava na cruz e na ressurreição!  O Filho do homem, ou seja, Jesus, é glorificado, e Deus é glorificado nele. O sacrifício de Cristo é digno de glória. Sua vitória sobre o mundo, o pecado e o diabo é digno de glória. Ele levar nossa iniquidade, tomar da ira de Deus e nos dar Sua Justiça é digno de glória. Ele ressurgir dos mortos e receber o nome que é sobre todo nome é digno de glória!

É isso que Deus ama. Ele ama Sua glória, Ele ama mostrar Sua glória para nós em Cristo. É para isso que o mundo existe, para que o Filho de Deus receba toda glória pela criação e pela redenção e pela glorificação. Nós somos chamados a participar dessa glória. Como isso pode nos deixar do mesmo jeito? Isso TEM que nos transformar! Impossível olharmos para a glória de Deus e ficarmos com o coração parado. Se temos olhos para ver, se temos ouvidos para ouvir, vamos ter o coração para exultar, assim como Paulo em Romanos 11: “Porque todas as coisas são dele, por ele e para ele. A ele seja a glória eternamente! Amém.”, ou em 1Timóteo 1: “ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus, sejam honra e glória para todo os sempre. Amém”.

No próximo post veremos, à luz do amor de Deus pela Sua glória, o que devemos amar!

Eduardo Almeida