Adoração Pedagógica

Eram as vozes dos meus irmãos,
Eles cantavam a minha canção
Quando a canção em mim já havia morrido

– Andrew Peterson

O canto congregacional é um grande meio de graça e crescimento para a alma do cristão, é uma prática própria do povo de Deus que derrama seus corações e levantam suas vozes juntos em adoração daquele que os amou e os redimiu. Cantar em conjunto é a atividade dos cristãos que desejam servir um ao outro, que estão dispostos a lutar juntos até a glória, que intuitivamente entendem  o poder da música para levantar nossas almas, fortalecer nossas mãos e aumentar nossos corações. Dificilmente a igreja moderna irá subestimar o louvor cantado em termos de quantidade, mas há um perigo real em desvalorizar sua qualidade e função, um perigo de darmos para a música um lugar no palco, mas não um papel no drama de nossa peregrinação.

O canto verdadeiramente congregacional sempre terá um efeito subjetivo no crente, mas apenas através da verdade objetiva; ele moverá o coração, ele aumentará a emoção, mas não como um fim em si mesmo. Dezoito anos atrás eu tive minha primeira e única experiência de ver um time de futebol da primeira divisão inglesa jogar em casa. Tottenham Hotspur estava jogando contra o Fiorentina no White Hart Lane (estádio do Tottenham), e foi uma experiência incrível para um descrente do futebol estar no meio de milhares de pessoas unidas, vestidas com as mesmas cores, torcendo para o mesmo time, e cantando da mesma forma. Eu não sabia os gritos da torcida, mas eu podia sentir o peso afetivo deles: torcedores chorando, levantando as mãos, balançando juntos, fechando os olhos numa forma de êxtase esportivo. Naquele ambiente carregado seria fácil  esquecer que sua reunião e suas canções estavam centradas em um grupo de homens chutando uma bola por 90 minutos.

Muito do que se passa por músicas de louvor tem um pouco do White Hart Lane – uma experiência sensorial hipnótica que nos eleva e nos acalma na melodia de uma canção, na identidade de um grupo, na torrente de melodia e proficiência musical que temos acumulado como cristãos. Se isso é tudo que temos, não alcançamos a meta de sermos transformados, e não alcançamos a meta do que o verdadeiro culto deve ser. A adoração sem emoção não é boa, mas o louvor intelectualmente vazio também não. A beleza da verdadeira adoração é que nos dirigimos a Deus, mas também que nos dirigimos um ao outro com quem Deus é e com o que Ele disse. Nós adoramos em nosso espírito, pelo poder do Santo Espírito, mas também envolvemos nosso intelecto profundamente, com os os olhos fixos na glória do Evangelho e com os corações afinados com os sentimentos do Evangelho. Tal adoração é profundamente didática, ela treina o discípulo enfraquecido, ela proíbe o sentimento vazio, ela chama nossa atenção e nossa afeição para o Deus em cuja presença e poder estamos nos encontrando.

Quero entender o sentido
Quero sentir o entendido
Quero viver minha vida em função da um pedido:
Que ele transforme minha mente e o meu coração

– Leonardo Gonçalves, Mente e Coração

Eu, muito recentemente, experimentei isso de forma pessoal. No meio dos espinheiros do discipulado diário, andando no terreno pedregoso que é manter a esperança em Cristo no deserto, juntei-me a irmãos e irmãs que cantaram o Salmo 111. A melodia era simples, as palavras eram singelas e o ritmo era quadrado, mas a experiência foi um lindo equilíbrio entre mente e coração. A música da minha alma estava fraca quando entrei no prédio da igreja, mas meu espírito foi fortalecido por cantar as Palavras de Deus com o povo de Deus, e por ouvir suas vozes enquanto O exaltavam. A experiência não foi de puro êxtase emocional, mas me tocou profundamente, como um antidoto à superficialidade de grande parte da vida moderna, e um exercício humilhante sobre colocar Deus no Seu lugar de direito. Meus irmãos e irmãs me ensinaram e treinaram para, nesses momentos, ver a glória de Deus no meio da densa neblina do discipulado, e sou profundamente grato por isso. Nós não queremos apenas uma experiência, mas a verdade exaltada através do cantar humano, e nossas almas transformadas no processo.

Essa é a experiência de louvor que quero sempre encontrar, e que devo desejar promover. Este levantar de canções e almas não se baseia na data de composição de um hino, nem às preferências culturais/estéticas da comunidade que adora, mas na questão ainda mais fundamental de como nós adoramos através da música, as mecânicas espirituais e aspirações que devem se a base quando cantamos juntos.

Original: “Instructive worship” de Andrew Roycroft, no blog thinkingpastorally.com

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